sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Mary John em Montemor-o-Novo

Levar a literatura aos leitores mais novos: esta tem sido a difícil e louvável batalha de Andreia Brites, mediadora de leitura em escolas e bibliotecas. No seu blogue "O Bicho dos Livros" fala-nos, entre outras coisas, dos seus encontros e desencontros com leitores.
Neste início de 2018, conta-nos a história da Mary John em escolas de Montemor-o-Novo.
Ano novo, leitores novos!




domingo, 31 de dezembro de 2017

Por último

O último a chegar, o último a sair, o último a rir, na última hora, no último instante, em última instância, em último recurso, o último cartuxo, o último tango, no último dia, no último domingo, o último voo do flamingo, em último caso, em última análise, por último, ultimamente, a esperança é sempre a última

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Veio de longe.

Veio de longe. Veio do Norte. Veio de repente.
Veio no inverno. Ao fim da tarde.
Veio num impulso. Num frenesim. Numa rajada.
Veio assim do nada.
Com força. Com fúria. Com euforia.
E passou por nós como um sopro. Como uma onda. Como um fantasma.
Veio radiante. Veio simples. Selvagem.
Veio à vontade. À toa. À solta.
Quem viu, sabe que viu. Mas ninguém lhe deu um nome. Ninguém sabe o que era nem ao que vinha.
Estamos todos à janela. À espreita. À espera que passe outra vez.
Que venha depressa. De qualquer maneira. 
Aos ziguezagues. Aos pinotes. Aos trambolhões.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Eu sou. Eu sei.

Eu sou. Eu sei. 
Eu dou. Eu rei.
Eu com. Eu sem.
Eu vou. Eu nem.
Eu vim. Eu vi. 
Eu fiz. Eu quis. 
Eu li. Eu ri.
Eu snif. Eu nhec.
Eu cá. Eu lá. 
Eu sim. Eu não. 
Eu tic. Eu tac.
Eu cof. Eu choc.
Eu som. Eu sol.
Eu dor. Eu cor. 
Eu vrum. Eu flor. 
Eu luz. Eu voz.
Eu céu. Eu chão. 
Eu pé. Eu mão.
Eu mar. Eu ar. 
Eu mãe. Eu pai.
Eu mas. Eu mais.
Eu cão. Eu pão.
Eu ai. Eu ui.
Eu bem. Eu mal.
Eu já. Eu plim.
Eu splash. Eu fim.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Pós-parto

O leite sobe. A neve cai. A noite cai. 
Uma noite muito longa e fria. 
Uma noite imensa, que nunca mais vai acabar. 
É uma noite para toda a eternidade. 
Cai por terra como um assombro. E não há como escapar.
O meu filho chora. Eu choro. As minhas maminhas choram também
Caímos todos das nuvens. Caímos na tristeza. Caímos em nós. 
Eu e o meu filho na noite: dois mamíferos melancólicos. 
Ando a ler Marguerite Duras. Uma edição mal-ajeitada. 
As folhas desprendem-se à medida que leio. Caem que nem tordos.
É uma leitura para este outono. 
As folhas caem. Ele dorme. E eu leio.

“L'amant est venu près d'elle, il a mis son corps contre le sien. Il dit qu'il sait ce qu'elle a en ce moment, ce désespoir, cette peine. Il dit que c'est comme ça, quelquefois, à une certaine heure de la nuit, ce désarroi, qu'il sait comme on est perdu. Mais que ce n'est rien. Que c'est comme ça pour tout le monde la nuit quand on ne dort pas. Il dit que peut-être ils vont s'aimer, qu'on ne sait pas tout de suite.
Et puis il la laisse pleurer.
Et puis elle dit que peut-être elle a faim.” (L’amant de la Chine du Nord, Marguerite Duras)

Mais uma folha caída. Mais uma noite imensa. 
E então levanto-me e como pão com manteiga.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Mary John é Livro do Mês!

Apesar do frio e da falta de luz, o mês de novembro não correu nada mal.
A "Mary John" foi selecionada livro do mês pelos leitores que participaram na votação da CEPE (Coordenação do Ensino de Português) na Bélgica e na Holanda: https://escritores.online/mary-john-ana-pessoa-livro-do-mes-novembro/
LIVRO DO MÊS é uma iniciativa conjunta do Instituto Camões e da plataforma escritores.online.
Obrigada a todos os leitores que participaram na votação!


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Uma vez servi hambúrgueres aos Xutos e Pontapés

Hoje é o último dia de novembro e começou a nevar em Bruxelas. O meu filho nasceu há três dias. Neste momento está com soluços. Era um dia quase perfeito, mas uma amiga deu entrada no hospital e o Zé Pedro morreu. Vejo a neve a cair e canto O Homem do Leme dentro da cabeça.
Uma vez servi hambúrgueres aos Xutos e Pontapés. É mesmo verdade. Foi numa roulotte do Rock in Rio. O Tim fez o pedido e eu cumpri todos os desejos: coca-colas, cervejas, batatas. O Tim olhou para a conta: "Eh pá, acho que te enganaste." Eu desculpei-me: "É que eu não sei fazer contas". O Tim ralhou-me. "Mau, mau, Maria". Fez uma piada qualquer sobre tabuada, a que se seguiu um esforço conjunto: eu e o Tim a fazer a conta juntos. Ora, um hamburguer assim, outro assado, colas, cervejas, este era com menu, o outro não era. Às tantas, admiti: "Não consigo concentrar-me". O Tim riu-se, chutou um número. Eu perguntei: "Mas eu enganei-me na conta para cima ou para baixo?" Ele disse: "Para baixo". Eu disse: "Então, não faz mal!" O Tim riu-se. Insistiu. Aquelas coisas de sempre: nem pensar, quero pagar. Eu disse que estava bem assim. Sou fã e tal.
"De certeza?" Eu disse: "De certeza". Ele disse: "Coitado do patrão!" Eu encolhi os ombros. O patrão era um tipo sujo e desonesto, mas eu não disse isso. Na verdade, não devo ter dito nada. E nem fiz uma piada sobre a minha alegre casinha. Fiquei para ali com cara de parva a dar uns quantos chutos à minha desconcentração. Depois eles foram-se embora, os Xutos e Pontapés, com aquele jeito inventado de serem rockeiros à portuguesa, os seus hambúrgueres e cervejas e coca-colas, e eu fiquei a vê-los ir com a sensação de que um dia escreveria sobre isso. O meu momento desconcentrado com os Xutos e Pontapés.
Neva lá fora e eu canto: "E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder".
Não há dias perfeitos. Não há salvação eterna. Não há deus que nos valha.
Mas há canções extraordinárias. E pessoas.
Incluindo alguns artistas.